CARTA ABERTA AO SENHOR BISPO DIOCESANO - 3-out-2025

 




FÓRUM INTER-RELIGIOSO
DE SANTA BÁRBARA D’OESTE  


CARTA ABERTA AO SENHOR BISPO DIOCESANO

Assunto: Repúdio à manifestação de intolerância religiosa e apelo ao diálogo



Santa Bárbara d’Oeste, 02 de outubro de 2025


A Sua Excelência Dom Devair Araújo da Fonseca

DD. Bispo da Diocese de Piracicaba



O Fórum Inter-religioso de Santa Bárbara d’Oeste, espaço dedicado à promoção do diálogo, da paz e do mútuo respeito entre os diferentes credos, vem, por meio desta, manifestar seu profundo repúdio e imensa tristeza em relação às declarações públicas proferidas por um padre desta diocese na cidade de Santa Bárbara d’Oeste, amplamente divulgadas nas redes sociais.


Em sua fala, o referido padre se vangloriou de ter "exorcizado" e ter “deixado tudo certo” antes ingressar em novo prédio, recentemente adquirido, desdenhando e desrespeitando um trabalho espiritual, referindo-se a ele de forma pejorativa como "macumba". 


É nosso dever esclarecer, de forma respeitosa, que os vestígios a que ele se referiu indicam ser resquícios de uma entrega, de uma oferenda destinada a uma das entidades sagradas das religiões de matriz africana, como a Umbanda e o Candomblé, em um prédio não utilizado há muito tempo. Este ato de oferenda, para os seus praticantes, é um momento de entrega, fé e conexão com o divino, dotado de profundo significado e sacralidade.


A fala proferida não apenas maculou a manifestação sagrada, como ofendeu a inúmeras pessoas e comunidades. Ao referir-se ao ato religioso como “macumba”, empregou um termo depreciativo, utilizado e destinado, desde séculos, a demonizar todas as expressões de sagrado de matriz africana no Brasil, colocando-a como algo ruim, algo que precisa ser combatido e se possível, destruído, alimentando o discurso de ódio contra essas pessoas e comunidades. O ato de generalizar todas as expressões religiosas de matriz africana como “macumba”, fortalece-se o racismo religioso, tão combatido pelas organizações religiosas que pregam a paz, a harmonia e o amor entre todas as pessoas.


A ofensa perpetrada vai além de palavras impensadas ou inadequadas. É um ato de vilipêndio a um símbolo religioso alheio. Para que haja justa compreensão da gravidade, equiparemos tal atitude a um vandalismo praticado contra imagens de um santo católico, ato este que, por justa razão, causaria grande indignação e dor aos fiéis da Igreja. Lamentável exemplo temos na violência dos chutes proferidos contra uma imagem católica e transmitidos pela televisão em 1995.


O desprezo e o desrespeito ao sagrado da outra fé não pode ser tolerado. Como não podemos aceitar a demonização do que é desconhecido ou diferente, notadamente mediante sua legitimação por nenhuma liderança religiosa. Tal postura, vinda de uma figura com tamanha influência, alimenta o racismo religioso, incita a violência, o ódio e fere profundamente a essência e a dignidade de milhares de pessoas que têm nas religiões de matriz africana o seu sustento espiritual e cultural.


Confiamos no histórico de Vossa Excelência e da Diocese no trabalho pela unidade e pelo respeito. No entanto, não podemos aceitar que um fato de tal gravidade passe em branco. Por isso, solicitamos firmemente:


1. Uma retratação pública e formal do padre, também em meio digital, que eduque sua comunidade sobre a importância do respeito às demais crenças;


2.  O compromisso em promover, no seio da Igreja Católica em nossa diocese, iniciativas de educação e diálogo inter-religioso que combatam a ignorância e o preconceito.


Reiteramos nossa total disponibilidade para, juntos, construirmos pontes. Convidamos Vossa Excelência e o referido padre a uma reunião conosco, para que este momento de crise se transforme em uma oportunidade de aprendizado e cura.


Com esperança no entendimento e na força do diálogo,



Fórum Inter-religioso de Santa Bárbara d’Oeste


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